Naquele começo de tarde, estava eu a ir para a escola secundária de águas -santas para mais um dia de aulas. Na rua estreita que ia dar à escola sempre me cruzava com outros alunos que regressavam a casa depois de uma manhã preenchida de aulas. Normalmente
Vinham todos em pequenos grupos, mas havia sempre um rapaz alto de bonita aparência que regressava sempre sozinho, e por mais que ele disfarçasse eu conseguia notar pelos seus olhos que algo não estava bem na vida dele. Muitas vezes cruzei o meu olhar com o dele e parecia que sentia aquele vazio. Na escola via-o sempre a sorrir, alegre e bem disposto ao pé dos colegas, e quem o via ali e o via sozinho, podia reparar que não parecia a mesma pessoa. Ele com os amigos estava sempre extrovertido, parecendo ser a pessoa mais feliz do mundo, mas quando ia para casa eu notava que ele não se sentia bem. Muitas vezes pensei em ir falar com ele, cumprimenta-lo, para tentar saber o que se passava …. Mas nunca tive coragem por mais que tivesse a vontade de o fazer… mais uma vez aquele olhar cruzava-se com o meu, parecendo tentar dizer “estou aqui, preciso de alguém”.
Numa tarde como o habitual fui para a Escola, e no caminho o Luís Vilaça (o tal rapaz) dessa vez não se cruzou comigo. Chegando à escola pode constatar que a bandeira estava a meia haste. Na entrada estava um grande grupo de estudantes em volta de um funcionário que tinha na mão o livro de ponto da turma 12ºG, aberto na primeira página, apontando o dedo para a fotografia de um rapaz. Pela conversa pode verificar que o Luís Vilaça tinha-se suicidado, o que meu deu um enorme aperto no coração. Não queria acreditar no que ouvia, pois não entendia como era possível um rapaz inteligente, giro, extrovertido, e rodeado de “amigos” podia ter cometido tamanha loucura.
Fui ao funeral do Luís, vendo ali o corpo dele deitado naquele enorme caixão, ainda não acreditava que estivesse morto, pois parecia estar a dormir.
Mais tarde vim a saber por uma amiga dele que a policia tinha encontrado nos bolsos das calças dele uma carta que ele tinha escrito antes de ter pegado na pistola do pai (que era policia) e ter disparado debaixo do queixo. Naquela carta ele dizia que não aguentava mais a solidão que sentia na vida dele.
Mas agora podemos perguntar “ Mas então ele não tinha muitos amigos? Mas ele parecia tão alegre e cómico! Pois mas olha, eu quero dizer que há entre nós muito jovens que aparentam ser muito felizes, mas no fundo os corações por dentro estão a chorar. Porque é que nós não deixamos de sermos tão egoístas? Por vezes mostramos certa frieza e arrogância uns para os outros, e somos tão falsos pensando que ninguém se apercebe disso, e não somos capazes de sermos mais humildes e atenciosos para os outros, pois somos interesseiros e só abrimos o nosso coração a quem nós queremos! Nós devemos dar mais valor aos outros, cada pessoa tem muito valor, porque é diferente de outra qualquer, não só precisamos de alimento para sobrevivermos! O homem é um ser social, e precisa de se sentir amado pelos outros. De que estamos nós à espera de mudar-mos a nossas atitudes? vamos acabar de sermos tão mesquinhos ok?